A Organização dos Estados Ibero-americanos (OEI) divulgou, em 16 de agosto, uma retificação no edital que define a seleção de operadores para restaurantes e quiosques da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (Cop30), que será realizada em Belém. A correção libera a comercialização de pratos tradicionais da culinária paraense — entre eles açaí, tucupi e maniçoba — revertendo a restrição prevista na versão anterior do documento.
O novo texto permite que esses alimentos sejam servidos tanto nos 50 pontos de alimentação da Blue Zone, área destinada às delegações oficiais, quanto nos 37 pontos da Green Zone, aberta ao público em geral. A medida atende a reivindicações de produtores regionais, chefs de cozinha e representantes do governo federal, que pediam a inclusão de insumos amazônicos no cardápio do evento que, justamente, tem a floresta como tema central.
Segundo o Ministério do Turismo, a mudança reforça a representatividade cultural do Pará ao garantir visibilidade a ingredientes considerados patrimônio imaterial da região. Para a pasta, a presença de receitas locais em um fórum climático mundial reforça a conexão entre biodiversidade, conhecimento tradicional e geração de renda para comunidades amazônicas.
O açaí, o tucupi e a maniçoba são amplamente consumidos em Belém e em diversos municípios do estado. Nas feiras livres da capital, como o Mercado Ver-o-Peso, esses produtos movimentam a economia e fazem parte da rotina alimentar de moradores e visitantes. Com a liberação, operadores selecionados para atuar na Cop30 poderão oferecer versões tradicionais e releituras contemporâneas dos pratos, desde o açaí batido com frutas até caldos quentes de tucupi acompanhados de farinha, além da maniçoba preparada com folhas de maniva e carnes.
O edital estipula que as empresas interessadas em explorar os pontos de venda devem comprovar experiência prévia em eventos de grande porte, apresentar plano de manejo de resíduos e utilizar embalagens sustentáveis. As inscrições permanecem abertas até às 10h de 25 de agosto, e o resultado da seleção será divulgado após análise técnica da OEI e do comitê organizador da Cop30.
A alteração no documento ocorreu após negociações entre a OEI e autoridades brasileiras, inclusive o Ministério do Turismo. O argumento principal foi a relevância histórica, cultural e econômica dos ingredientes amazônicos, além de sua capacidade de atrair visitantes que buscam experiências gastronômicas autênticas. A incorporação oficial da culinária paraense deverá estimular pequenos produtores, fortalecer cadeias de valor locais e ampliar a divulgação internacional da cozinha amazônica.
Esta não será a primeira vez que alimentos regionais do Brasil ganham espaço em uma conferência climática. Durante a Cop28, em 2023, em Dubai, o açaí foi oferecido como sorvete em um estande da Green Zone, iniciativa de uma empresa brasileira que atua no Oriente Médio. A boa recepção do público na ocasião reforçou o potencial de produtos amazônicos em contextos globais.
Belém ostenta, desde 2015, o título de Cidade Criativa da Gastronomia concedido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Em 2024, a capital paraense foi citada pelo guia Lonely Planet como o único destino brasileiro entre os dez melhores do mundo para viagens culinárias, reconhecimento que colocou ainda mais foco nos sabores regionais.

Imagem: divulgação via brasilturis.com.br
A Cop30 está prevista para ocorrer em novembro de 2025 e deve reunir chefes de Estado, especialistas, representantes de organizações internacionais, empresas e ativistas dedicados às negociações climáticas. As autoridades locais estimam a participação de dezenas de milhares de pessoas, distribuídas entre as duas zonas do evento. A expectativa é que a liberação dos pratos típicos incremente o turismo gastronômico, setor já impulsionado pela diversidade de frutas, raízes, peixes e ervas da região.
Após a seleção dos operadores, a OEI elaborará um manual específico contendo padrões de qualidade, requisitos de segurança alimentar e diretrizes de sustentabilidade. A entidade também acompanhará a implementação dos serviços para assegurar que os itens da culinária paraense sejam oferecidos de forma adequada e em conformidade com as regras sanitárias.
Com a retificação do edital, fornecedores locais e nacionais ajustam propostas para incluir receitas originais, métodos de preparo artesanais e ingredientes vindos diretamente de comunidades ribeirinhas e agricultores familiares. A expectativa do setor de turismo é que a vitrine internacional da Cop30 contribua para consolidar o Pará no roteiro de viajantes interessados em gastronomia, natureza e cultura amazônica.
Até a data-limite de inscrição, empresas de diferentes portes podem apresentar suas candidaturas on-line, detalhando cardápio, logística de abastecimento e estratégias de redução de impacto ambiental. O processo faz parte do cronograma oficial do evento, que envolve ainda a instalação de estruturas temporárias, definição de rotas de transporte e capacitação de mão de obra local.
A confirmação da venda de açaí, tucupi e maniçoba nos espaços oficiais da Cop30 representa um passo decisivo para alinhar a conferência com a identidade do território que a abriga, ao mesmo tempo em que reforça a importância dos conhecimentos tradicionais na discussão sobre desenvolvimento sustentável e preservação da Amazônia.




