Quarta queda seguida nas vendas do varejo amplia pressão de juros e câmbio, avalia CNC

Leonardo Monteiro

O comércio varejista brasileiro encerrou julho com retração de 0,3% nas vendas e completou quatro meses consecutivos de queda, segundo a Pesquisa Mensal de Comércio (PMC) divulgada pelo IBGE nesta quinta-feira (11). A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) previa leve avanço de 0,1% para o período, mas o resultado ficou abaixo da estimativa e acendeu novo sinal de alerta sobre o ritmo de consumo no País.

Com o desempenho negativo registrado entre abril e julho, o setor se aproxima de patamares observados em dois momentos críticos da economia brasileira: a recessão de 2015 e a crise de abastecimento energético de 2001, quando também ocorreram quatro quedas mensais seguidas. No acumulado de 12 meses, a expansão das vendas passou de 2,9% em junho para 2,5% em julho, reforçando a tendência de desaceleração.

Para a CNC, a combinação de taxa de juros elevada, instabilidade cambial e atividade econômica moderada explica a dificuldade de reação do varejo. O economista-chefe da entidade, Fabio Bentes, afirmou que a trajetória atual de vendas “aponta de forma clara o impacto do custo do crédito sobre o consumo”. Já o presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros, afirmou que o nível dos juros compromete simultaneamente consumo e investimento, com reflexos sobre emprego e renda.

Entre os oito grupos pesquisados no chamado varejo restrito — que exclui veículos e material de construção —, três puxaram o recuo de julho. O maior peso negativo veio de equipamentos e materiais para escritório, informática e comunicação, segmento que encolheu 3,1% no mês. Na sequência, tecidos, vestuário e calçados caiu 2,9%. Já hiper, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo, responsável pela maior participação na pesquisa, recuou 0,3%.

Algumas atividades registraram avanço no período. Móveis e eletrodomésticos cresceram 1,5%, enquanto livros, jornais, revistas e papelaria apresentaram alta de 1,0%. Os demais grupos — combustíveis e lubrificantes; artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos, de perfumaria e cosméticos; e outros artigos de uso pessoal e doméstico — oscilaram sem alterar de forma significativa o resultado geral.

No varejo ampliado, que inclui veículos, motos, partes, peças e material de construção, houve crescimento de 1,3% em julho, revertendo a queda de 3,1% anotada em junho. O resultado positivo decorreu da recuperação desses dois segmentos adicionais, mas não foi suficiente para compensar integralmente a sequência de perdas anteriores.

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Imagem: panrotas.com.br

Além da influência doméstica do crédito caro, a CNC observa que o consumo interno enfrenta um ambiente externo de incerteza. Segundo a entidade, a guerra tarifária envolvendo Estados Unidos e Brasil provocou volatilidade cambial em julho. As tarifas norte-americanas entraram em vigor em agosto e, de acordo com a Confederação, seus efeitos tendem a aparecer nas próximas divulgações da PMC.

Bentes avalia que a combinação de juros elevados, câmbio instável e desaceleração da atividade pode prolongar o atual ciclo de retração. Ele ressalta que, embora o varejo ampliado tenha mostrado reação pontual em julho, a sustentação do consumo dependerá da redução consistente do custo do crédito e de maior previsibilidade no cenário externo. Essa avaliação reforça a cautela do setor, que segue monitorando indicadores de emprego, renda e inflação na tentativa de antecipar movimentos de demanda.

Enquanto isso, empresas de comércio buscam estratégias para driblar o momento adverso. A redução de estoques, o reforço de promoções e a diversificação de canais de venda têm sido apontados por analistas como medidas para mitigar os impactos da menor circulação de consumidores nas lojas físicas e virtuais. A CNC, porém, reafirma que somente um ambiente macroeconômico mais favorável poderá impulsionar uma retomada duradoura do varejo.

Com a PMC de julho, o mercado acompanha agora os dados de agosto para verificar se o recuo persistirá ou se haverá sinal de estabilização. Caso se confirme um quinto resultado negativo, o setor igualará a maior sequência de quedas registrada nos últimos 22 anos, reforçando a pressão sobre formuladores de política econômica por medidas de estímulo ao crédito e ao investimento produtivo.

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Me chamo Leonardo Monteiro, Graduado em Gestão Comercial e proprietário do Instituto Brasileiro de Ensino Técnico e Profissionalizante (IBETP), que já formou mais de 10 mil alunos desde 2015. Casado com Cristiane Mariele, sou pai da Mariana e da Julia.Carioca de nascença, atuei por mais de uma década como auditor de ativos e gestor no setor farmacêutico, viajando pelo Brasil entre 2009 e 2022. Apesar da rotina intensa, foi só mais tarde que descobri o prazer de viajar com propósito: sem pressa, com emoção e liberdade.Hoje, além de educador, compartilho experiências autênticas que unem conhecimento, inspiração e transformação.
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