A aviação comercial no Brasil voltou a apresentar trajetória de expansão e opera atualmente com volume de passageiros superior ao registrado antes da pandemia de covid-19. A avaliação é de Jerome Cadier, presidente da Latam Airlines, que revisitou as últimas duas décadas do setor em entrevista concedida recentemente. De acordo com o executivo, depois de um longo período de transformações, o mercado nacional exibe condições para crescer de forma sustentada e atingir patamares inéditos de demanda.
Ascensão acelerada nos anos 2000
O desempenho do início do século definiu novos contornos para o transporte aéreo no País. Em 2000, aproximadamente 30 milhões de pessoas viajavam de avião em rotas domésticas. Dez anos depois, esse contingente chegou a 100 milhões, o que representa triplicação em apenas uma década. Paralelamente, o preço médio das passagens caiu cerca de 50% durante o período, movimento atribuído ao aumento de eficiência operacional e à ampliação da concorrência. A combinação de tarifas mais baixas e renda em expansão permitiu que o avião deixasse de ser um serviço restrito e passasse a integrar o cotidiano de uma parcela maior da população.
Estabilidade entre 2010 e 2020
O intervalo seguinte, contudo, não repetiu o ritmo anterior. Entre 2010 e 2020 o número anual de passageiros flutuou entre 100 e 110 milhões. Embora a disputa entre companhias como Avianca, Azul, Gol e Latam tenha mantido a pressão sobre preços, a redução das tarifas ocorreu de maneira mais gradual. Segundo Cadier, um dos fatores que limitaram a expansão foi o crescimento econômico modesto observado no País durante grande parte da década, o que restringiu a capacidade de ampliação da demanda interna.
Impacto da pandemia
A crise sanitária imposta pela covid-19 provocou a maior interrupção da história recente do setor. Com restrições de mobilidade impostas em março de 2020, companhias chegaram a registrar dias sem qualquer decolagem em território nacional. A paralisação atingiu receitas, comprometeu fluxos de caixa e exigiu esforços de reestruturação por parte das empresas. Apesar do choque, o executivo observa que as companhias conseguiram preservar parte de sua infraestrutura e retomaram rapidamente as operações assim que as medidas de isolamento começaram a ser flexibilizadas.
Recuperação acima das expectativas
Transcorrido o período mais crítico da pandemia, o tráfego doméstico não apenas se normalizou, como atingiu patamares superiores ao período pré-crise. De acordo com Cadier, a quantidade de passageiros transportados encontra-se hoje aproximadamente 20% acima dos níveis de 2019. A reação vem acompanhada de indicadores financeiros mais robustos e de uma oferta de voos que evolui no mesmo ritmo da procura.
Para o executivo, o crescimento deve continuar ao longo de 2024. A projeção aponta avanço próximo de 8% em relação a 2023, mantendo a tendência de alta registrada desde a reabertura plena das fronteiras. Se confirmado, o resultado colocará o mercado nacional entre os que mais crescem globalmente no pós-pandemia.

Imagem: panrotas.com.br
Potencial de longo prazo
O presidente da Latam sustenta que há espaço significativo para ampliação futura da aviação doméstica. Ele cita a dimensão continental do País e o fato de a população superar 200 milhões de habitantes como indicativos de demanda reprimida. A partir dessa base, Cadier visualiza a possibilidade de o setor transportar, em algum momento, número de passageiros equivalente ao total de residentes no Brasil, cenário que representaria praticamente o dobro do volume observado hoje.
Além do potencial demográfico, fatores estruturais podem favorecer a expansão. Entre eles, a continuidade de investimentos em frota eficiente, programas de fidelidade mais competitivos e a digitalização de processos de venda, check-in e despacho de bagagem. Adicionalmente, iniciativas governamentais para aprimorar a infraestrutura aeroportuária em cidades médias tendem a abrir novas rotas e a estimular o deslocamento aéreo como alternativa ao transporte rodoviário de longa distância.
Competição e preço
A perspectiva de expansão não elimina desafios. O setor opera com margens apertadas, elevada volatilidade de custos de combustível e intensa concorrência entre operadores estabelecidos. Mesmo assim, Cadier acredita que a competição continuará contribuindo para manter as tarifas em patamar acessível, ainda que não se repita a queda expressiva registrada na década de 2000. O ambiente concorrencial, segundo ele, seguirá como instrumento fundamental para democratizar o acesso ao serviço aéreo.
Enquanto o mercado projeta alcançar marcas históricas, companhias aéreas buscam adequar capacidade e estrutura financeira ao novo ciclo de crescimento. A manutenção de estratégias voltadas para eficiência operacional, expansão de malha e fortalecimento de programas de relacionamento com clientes desponta como condição para sustentar o avanço e transformar o potencial mapeado em passageiros efetivamente transportados.




