Durante a Expo Abla 2025, realizada em 29 e 30 de outubro no São Paulo Expo, o economista-chefe da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Igor Rocha, apresentou um panorama da conjuntura econômica brasileira e destacou os principais desafios que o país deve enfrentar até 2027. O especialista abordou emprego, inflação, política monetária, situação fiscal e a influência do cenário internacional, com ênfase no comportamento da economia norte-americana.
Mercado de trabalho e renda
Segundo Rocha, o mercado de trabalho mantém trajetória de recuperação, com redução do desemprego e avanço da formalização dos contratos. O aumento da massa salarial real elevou o poder de compra das famílias, fator que, embora positivo para o consumo, impôs obstáculos ao esforço do Banco Central para desacelerar a atividade. O economista ressaltou que o rendimento real em patamar elevado tem sustentado a demanda interna e contribuído para o crescimento observado em 2024.
Ele explicou que, no ano passado, a indústria foi o principal vetor de expansão, mas a expectativa para 2025 é de estabilidade. Enquanto a indústria de transformação e os bens intermediários continuam registrando desempenho satisfatório, segmentos ligados a bens de capital enfrentam incertezas ligadas às tensões comerciais entre Brasil e Estados Unidos, que afetam sobretudo as exportações de máquinas agrícolas.
Inflação e política monetária
Rocha observou que a inflação segue em queda, resultado que se deve, em grande parte, ao recuo dos preços dos alimentos. Esse movimento, afirmou o economista, contribuiu para preservar o poder aquisitivo das classes de renda mais baixa e evitar pressões sociais maiores. Embora o nível de preços permaneça acima do desejável, a trajetória descendente fortalece a expectativa de redução da taxa básica de juros.
De acordo com o economista, a previsão é de que o Banco Central inicie um ciclo de cortes da Selic no primeiro semestre de 2026. Existe, entretanto, a possibilidade de antecipação caso as condições de juros futuros continuem favoráveis. Rocha destacou que economias que operam com taxas de juros semelhantes à brasileira costumam entrar em recessão, mas o país tem demonstrado resiliência superior à de outras nações emergentes.
Contas públicas sob pressão
Apesar do cenário benigno para inflação e emprego, Rocha manteve tom de alerta em relação às finanças públicas. Ele lembrou que a dívida do governo vem crescendo desde 2022 e deverá permanecer pressionada até, pelo menos, 2027. Esse avanço, afirmou, eleva o custo do capital no país e limita a capacidade de o setor público estimular a economia por meio de investimentos ou desonerações.
Para o economista, a deterioração fiscal é o principal risco doméstico no horizonte analisado. Se não houver ajuste estrutural, a dívida continuará puxando as taxas de juros de longo prazo e poderá comprometer a trajetória de crescimento. Rocha defendeu que os próximos anos sejam dedicados a uma revisão dos gastos obrigatórios e à busca de um equilíbrio entre receitas e despesas permanentes.

Imagem: Rafael Destro via brasilturis.com.br
Câmbio valorizado e impactos nas exportações
Outro ponto abordado foi a valorização do real. Segundo Rocha, a moeda brasileira registrou uma das apreciações mais consistentes entre os países emergentes, contribuindo para a contenção da inflação importada. Esse movimento, porém, afeta a competitividade das exportações, em especial dos produtos manufaturados. O desafio, disse o economista, será equilibrar um câmbio que beneficie os consumidores e viajantes internacionais sem comprometer a indústria doméstica.
O especialista reforçou que as tensões comerciais com os Estados Unidos, particularmente no setor de bens de capital, tendem a continuar influenciando negativamente as vendas externas de máquinas agrícolas. Ao mesmo tempo, a valorização cambial encarece a produção nacional em dólares, exigindo ganhos de produtividade para preservar margens e participação de mercado.
Perspectivas para 2026
Rocha concluiu sua exposição projetando um cenário de desaceleração moderada do crescimento em 2025, estabilidade da indústria e início da redução da Selic no primeiro semestre de 2026. A manutenção da tendência de baixa da inflação e o comportamento favorável dos juros futuros podem acelerar esse processo. Contudo, o avanço da dívida pública segue como fator de preocupação, exigindo atenção constante de formuladores de política fiscal e monetária.
Em síntese, o economista-chefe da Fiesp apontou que o Brasil reúne condições para atravessar o biênio 2025-2026 com inflação controlada e retomada gradual da atividade, desde que o ajuste fiscal ganhe prioridade e a política monetária seja conduzida de forma prudente. A combinação de mercado de trabalho aquecido, câmbio valorizado e cenário externo incerto demandará respostas coordenadas para sustentar a confiança de investidores e agentes produtivos.




