Estudo da OAG detalha obstáculos estruturais para companhias aéreas na América Latina

Leonardo Monteiro

Um estudo recém-divulgado pela empresa de análise de dados OAG aponta que as companhias aéreas latino-americanas enfrentam um conjunto de desafios estruturais combinados a fatores econômicos e geopolíticos que complicam a busca por rentabilidade sustentável. O documento relembra casos emblemáticos de falências, como a da brasileira Varig, e destaca que, nos últimos cinco anos, as três maiores empresas da região recorreram ao Chapter 11 nos Estados Unidos para reorganização financeira. O levantamento examina obstáculos que vão do perfil de demanda à volatilidade cambial, sugerindo que a sobrevivência de longo prazo depende de ajustes constantes.

Predominância de rotas domésticas

O estudo mostra que a maior parte da capacidade ofertada permanece concentrada em voos dentro dos próprios países. Em 2025, 59 % dos assentos-quilômetro disponíveis (ASK) programados por companhias com sede na América Latina serão alocados em rotas domésticas, percentual superior aos 52 % registrados em 1996. Além disso, quase 90 % de todas as operações na região são voos internos. Embora essas rotas possam gerar volume de receita, em diversos mercados as tarifas têm componentes regulados, dificultando a formação de preços que cubram custos elevados, como combustível e manutenção cotados em dólar.

Competição intensa em mercados limitados

Na América do Sul meridional existem apenas cinco mercados continentais principais, excetuando as Ilhas Malvinas, e 95 % da capacidade aérea permanece restrita a esse perímetro. No bloco setentrional, o índice é de 86 %. A limitação geográfica reduz oportunidades de expansão e amplia a concorrência entre transportadoras locais. Desde 1996, o número de companhias que oferecem serviços internacionais regionais caiu quase dois terços no sul do continente, restando 12 operadoras. Na porção setentrional, oito empresas deixaram de atuar no mesmo período, evidenciando a dificuldade de manter operações viáveis quando a demanda é dividida entre muitos competidores.

Consolidação transfronteiriça ganha espaço

Com margens pressionadas, fusões entre grupos de países diferentes tornaram-se alternativa para ganhar escala. O caso mais notório foi a união da chilena Lan com a brasileira Tam, em 2012, resultando na Latam. Antes, a Taca, da América Central, havia se juntado à colombiana Avianca. Ambas as novas companhias cresceram e ingressaram em alianças globais, embora mais tarde tenham pleiteado proteção judicial nos Estados Unidos durante a pandemia: a Avianca concluiu sua reestruturação em 2021 e a Latam, em 2022. O movimento atual observado pela OAG é a negociação entre Gol e Azul, que busca criar uma malha integrada capaz de diluir custos e enfrentar o poderio de concorrentes estrangeiras.

Disputa com grandes hubs internacionais

A intensa competição não se limita ao cenário doméstico. Nas rotas para os Estados Unidos, dois terços dos passageiros latino-americanos viajaram indiretamente em 2024, conectando-se a mais de 300 destinos finais. Gigantes como American Airlines, United e Delta utilizam hubs em Miami, Houston e Atlanta para redistribuir esse tráfego, estratégia replicada pela Iberia em Madri no segmento transatlântico. Sem infraestrutura de conexões similar, companhias regionais perdem participação em mercados de alta densidade e veem receitas potenciais migrarem para operadores com redes globais consolidadas.

Custos em dólar e volatilidade cambial

A maior parte das despesas da aviação — leasing de aeronaves, peças, combustível e seguros — é dolarizada. Receitas, entretanto, são obtidas em moedas locais sujeitas a depreciação. O estudo cita o exemplo do peso argentino, que perdeu 33 % de valor em 12 meses, elevando imediatamente os custos operacionais no país. Embora a cotação do petróleo tenha recuado 13 % no mesmo período, o alívio foi insuficiente para compensar a pressão cambial. Para grande parte das empresas, qualquer disparada do dólar ou retração econômica mundial pode comprometer fluxos de caixa já apertados.

Estudo da OAG detalha obstáculos estruturais para companhias aéreas na América Latina - Imagem do artigo original

Imagem: transformações estruturais que permiti via panrotas.com.br

Política tributária e projeções setoriais

O cenário político também influencia resultados. A Associação Internacional do Transporte Aéreo (Iata) alerta que a eventual aplicação de 26 % de Imposto sobre Valor Agregado (IVA) em voos domésticos no Brasil pode reduzir a demanda, exceto entre passageiros de maior poder aquisitivo. Para 2025, a entidade projeta lucro líquido de US$ 1,1 bilhão para toda a aviação latino-americana, equivalente a aproximadamente US$ 3,40 por passageiro, cifra considerada modesta frente aos custos estruturais. Desde o início da pandemia, o saldo negativo acumulado deve alcançar US$ 20,3 milhões, segundo a mesma estimativa.

Perspectiva de longo prazo

A Boeing, em sua análise de mercado, adota visão mais otimista. A fabricante observa que a classe média regional corresponde a 40 % da população e tende a expandir a demanda por viagens aéreas, especialmente em companhias de baixo custo. A projeção indica necessidade de 2,1 mil aeronaves de corredor único nos próximos 25 anos, sendo 57 % destinadas a incremento de oferta e o restante para substituição de frota.

Embora fatores macroeconômicos permaneçam fora do controle das empresas, a OAG conclui que estratégias de consolidação, ajustes de malha e eficiência operacional seguirão determinantes para que transportadoras latino-americanas se mantenham competitivas em um ambiente marcado por alta rivalidade, volatilidade cambial e margens reduzidas.

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Me chamo Leonardo Monteiro, Graduado em Gestão Comercial e proprietário do Instituto Brasileiro de Ensino Técnico e Profissionalizante (IBETP), que já formou mais de 10 mil alunos desde 2015. Casado com Cristiane Mariele, sou pai da Mariana e da Julia.Carioca de nascença, atuei por mais de uma década como auditor de ativos e gestor no setor farmacêutico, viajando pelo Brasil entre 2009 e 2022. Apesar da rotina intensa, foi só mais tarde que descobri o prazer de viajar com propósito: sem pressa, com emoção e liberdade.Hoje, além de educador, compartilho experiências autênticas que unem conhecimento, inspiração e transformação.
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