A demissão do ministro do Turismo, Celso Sabino, oficializada nesta quarta-feira (27), foi interpretada pela professora e pesquisadora de Turismo da Universidade de São Paulo (USP) Mariana Aldrigui como um ponto de inflexão para o setor. Em artigo divulgado no Dia Mundial do Turismo, a acadêmica avaliou que a saída do titular da pasta representa “um presente” para o País, ao abrir espaço para reorientar políticas consideradas insuficientes, especialmente em relação ao mercado doméstico.
Críticas à gestão
Aldrigui destacou que mais de 90% da movimentação turística no Brasil ocorre internamente, mas, em sua visão, o ministério concentrou esforços em disputas políticas e iniciativas de pouca efetividade. A pesquisadora mencionou a ausência de ações robustas para conter a elevação de preços de hospedagem em Belém, sede da COP30, como exemplo da falta de resposta operacional durante a gestão de Sabino.
Segundo a professora, os eventos organizados pela pasta, como edições do Salão do Turismo, consumiram recursos elevados e atraíram público aquém do esperado. Ela também apontou divulgação de estatísticas sem auditoria externa e a impossibilidade de acesso a microdados, o que, no entendimento da comunidade acadêmica, compromete diagnósticos e planejamento de longo prazo. A suspeita de que parte dos “recordes” divulgados inclua brasileiros residentes no exterior foi citada como fator de distorção.
Comparação com a Embratur
No artigo, Aldrigui fez um contraponto entre o ministério e a Embratur. Enquanto a agência de promoção internacional tem buscado parcerias com o setor privado e ampliado ações no exterior, o órgão comandado por Sabino teria patinado em slogans e rivalidades institucionais. A falta de liderança, completou a pesquisadora, impacta temas estruturantes como conectividade aérea regional, infraestrutura em destinos turísticos e qualificação profissional.
Sustentabilidade em foco
O Dia Mundial do Turismo de 2025, que terá o tema “Turismo e Transformação Sustentável”, serviu de pano de fundo para as considerações da professora. Ela questionou a coerência entre o discurso de sustentabilidade e o estímulo ao aumento de voos internacionais sem contrapartidas ambientais claras. O transporte aéreo, lembrou, é uma das principais fontes de emissões de carbono no setor, e a falta de metas transparentes pode fragilizar a imagem do País às vésperas da COP30.
Problemas estruturais
Embora considere positiva a saída de Sabino, Aldrigui alertou que a mudança não resolve questões institucionais do ministério. A sucessão de titulares sem experiência técnica direta no turismo, observou, provoca descontinuidade e reduz a efetividade das políticas. Para a professora, o ministério permanece vulnerável a interesses políticos de curto prazo, o que dificulta a formulação de estratégias de longo alcance.
Cenário internacional
A pesquisadora também comparou a realidade brasileira com a de destinos concorrentes. Outros países, apontou, vêm avançando em planos que integram metas ambientais, investimentos em infraestrutura e estímulos tanto ao turismo doméstico quanto ao internacional. Segundo Aldrigui, o Brasil, apesar da diversidade cultural e natural, tem desperdiçado oportunidades por falta de coordenação e de dados confiáveis.

Imagem: panrotas.com.br
Necessidade de articulação federativa
No entendimento da acadêmica, a transformação sustentável do turismo depende de coerência entre prática e discurso, sistemas de informação robustos e cooperação entre União, estados, municípios e iniciativa privada. Ela reforçou que o setor empresarial tem puxado boa parte dos resultados positivos, mas carece de políticas públicas consistentes para ganhar escala.
Próximos passos
A carta de demissão de Celso Sabino ainda não foi acompanhada pelo anúncio oficial de um substituto. A escolha do novo titular ocorrerá em um momento de expectativas elevadas, sobretudo pela proximidade da Conferência do Clima da ONU em 2025. A comunidade acadêmica e o mercado aguardam definições sobre prioridades, incluindo ampliação de dados estatísticos auditáveis, revisão de incentivos à conectividade regional e atualização de programas de qualificação profissional.
O setor também observa como serão conduzidas as negociações com o Congresso Nacional e com outras pastas, a exemplo de Meio Ambiente, Transportes e Desenvolvimento Regional. Para especialistas, a integração interministerial é essencial para superar gargalos históricos de infraestrutura e alinhar objetivos de sustentabilidade, competitividade e inclusão social.
Enquanto o cargo permanece vago, a avaliação de Mariana Aldrigui reflete uma parte representativa do debate sobre a governança do turismo no País. O desafio, concluem vozes do setor, será transformar a troca de comando em mudanças estruturais que permitam ao Brasil aproveitar plenamente seu potencial turístico, equilibrando crescimento econômico, preservação ambiental e benefícios sociais.




